O SER VIRTUAL: O EXISTENCIALISMO E A COISIFICAÇÃO DO HOMEM NAS REDES SOCIAIS ON-LINE
Este artigo busca traçar um paralelo entre os pontos chaves do pensamento existencialista de Jean-Paul Sartre com o universo virtual das redes sociais on-line, tratando este mundo digital como uma nova esfera de existência humana. E tem por objetivo conceitualizar o homem como esse ser virtual, que constrói uma representação de si e tem sua relação com o outro, intermediada pela máquina. Primeiramente apresentamos o mundo virtual, o conceito de virtualidade e de redes sociais. Os pontos chaves do existencialismo são apresentados na segunda parte, como o conceito de essência, ser, liberdade, má-fé e a relação com o outro. Por fim, abordamos o processo de coisificação do ser que se objetifica perante o outro, negando sua própria liberdade.
INTRODUÇÃO
O existencialismo é uma das mais conhecidas correntes filosóficas do século XX e ocupa um importante espaço na história da filosofia. De acordo com Abrão (1999, p. 441), foi o encontro dos tradicionais problemas filosóficos com a experiência histórica, que “fortaleceu o sentido concreto dos fatos e enfraqueceu a pretensão às verdades eternas”, tornando a filosofia mais atenta às complexidades do mundo. Reynolds (2013), afirma que a ocupação alemã da França, durante a Segunda Guerra Mundial, fez aumentar as preocupações a respeito da morte, da responsabilidade e principalmente da liberdade. Estes temas encontraram vozes em autores como Simone de Beauvoir, Marleau-Ponty e principalmente no pensamento de Jean-Paul Sartre, que segundo o mesmo autor, foi o pensador mais lido na história da filosofia ainda em vida. Para ilustrar sua popularidade, Reynolds (2013, p. 11), lembra que “o número de pessoas presentes ao funeral de Jean-Paul Sartre em 1980 variam de 50.000 a 100.000, e isso se deu bem depois de seu auge cultural e intelectual.” Seu livro mais importante, O Ser e o Nada: Um ensaio sobre a ontologia fenomenológica, publicado originalmente em 1943, é ainda a obra de referência máxima dessa tradição filosófica.
Os existencialistas, segundo Abrão (1999), quando pensam a vida humana, não buscam um ideal de existência, mas sim, partem para uma análise do homem frente a si mesmo, ao outros e aos objetos do mundo. Para Bornheim (2005), o existencialismo pensa o indivíduo em sua existência cotidiana, sem nenhum fator especial.
Essa existência cotidiana, entretanto, se modificou no final do século XX. Os avanços tecnológicos na computação permitiram a popularização de computadores pessoais, ao mesmo tempo em que a rede mundial de computadores se estabelecia. Segundo Azevedo (2013), novas formas de interação surgiram com o desenvolvimento da transmissão de dados e de softwares, fazendo da comunicação, intermediada pela máquina, mais dinâmica e mais veloz. Neste cenário, as primeiras redes sociais on-line surgiram, colocando o indivíduo desprovido de conhecimentos em informática, não mais como um espectador passivo diante da informação, mas como um construtor ativo de conteúdos. Para Azevedo et al. (2012), esses novos processos interativos na comunicação possibilitaram mudanças na formação de subjetividades. “Entretanto, essa alteração da subjetividade, seja como causa ou consequência, modifica e transforma a estrutura social e suas relações de poder, além de possibilitar o surgimento de uma nova cultura baseada na informação.” (AZEVEDO et al., 2012, p. 69)
Assim o existir humano passou a ter uma nova esfera de atuação, num mundo virtual, onde novas formas de se relacionar foram construídas e os temas tradicionais do existencialismo, como a liberdade e sua angústia, o projeto de vida autêntico e a má-fé, encontram novas complexidades e levantam novas questões, quanto ao ser, suas representações e suas relações mediadas pela tecnologia.
Este artigo visa, de modo geral, expor um conceito do ser virtual, identificando aspectos do existir on-line sob a ótica do pensamento de Sartre. Para isso apresenta, num primeiro momento, o mundo virtual das redes sociais e o conceito de virtualização, para então relacioná-los com os principais temas do existencialismo e por último, expor um conceito de coisificação do ser, que na virtualidade se dá de forma mais exponencial.



