ACADÊMICOS - FILOSOFIA

O SER VIRTUAL – III

O EXISTENCIALISMO E A VIRTUALIDADE

ESSÊNCIA E EXISTÊNCIA VIRTUAL

O existencialismo se define basicamente pela máxima de Sartre (2012, p.18), “a existência precede a essência”, referindo-se a ideia de que o ser humano não possui uma essência pré-concebida, ou como explica Abrão (1999, p. 446):

O existencialismo concebe que há pelo menos um ser que existe para si, que não foi criado ou produzido a partir de uma essência preexistente: o homem. No homem a existência vem antes da essência. Isso significa que não há uma predefinição do homem, como existe uma predefinição de um objeto fabricado.

A essência remete a ideia de um algo que foi conceitualizado antes de vir a existir. Um produto idealizado antes de ser devidamente produzido, como o exemplo da tesoura, citado por Sartre (2012, p. 18) “esse objeto foi fabricado por um artífice, inspirado em um conceito; ele tinha como base o conceito de corta-papel e, também, uma certa técnica de produção anterior”. Ou seja, o objeto possui uma essência que é anterior a sua existência. 

O que não se aplica ao caso do ser humano, pois para o existencialismo de Sartre, não há uma essência humana. O homem é um nada que vêm ao mundo para se tornar algo. Existir é então, para Sartre (2012, p. 19), “um projeto que se vive enquanto sujeito”. Aranha e Martins (2003, p. 358) explicam que etimologicamente a palavra projeto significa “‘ser lançado adiante’, assim como o sufixo ex da palavra existir significa ‘fora’”. Esse projetar-se faz do homem o responsável por sua existência, o que implica em sua liberdade de fazer suas escolhas. Se há uma natureza humana, essa natureza é a liberdade. “O homem é, não apenas como é concebido, mas como ele se quer, e como se concebe a partir da existência, […] o homem nada é além do que ele se faz.” (SARTRE, 2012, p. 19)

Porém essa liberdade não remete a uma individualização, cada escolha feita pelo homem é também uma escolha feita por todos os homens, com diz o pensador francês: “queremos existir ao mesmo tempo em que moldamos nossa imagem, tal imagem é válida para todos e para nossa época inteira” (SARTRE, 2012, p. 21).  O que acrescenta um peso à responsabilidade do sujeito que se projeta no mundo perante os outros.

E quanto ao mundo virtual? Segundo Lévy (2011, p. 15) a palavra virtual é derivada do latim virtus, que significa força ou potência e seu uso na atualidade remete à filosofia escolástica, onde virtual era o que existe em potência e não em ato. E ainda segundo Lévy (2010, p. 49) é virtual “o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização. O virtual encontra-se antes da concretização efetiva.” E como exemplo, esse autor cita a semente de uma árvore, que é também ao mesmo tempo, virtualmente, uma árvore, pois ela existe como potência, como possibilidade.

Dessa forma o virtual não se opõe ao real no sentido de ilusão ou mentira. O virtual se opõe ao atual. “Virtualidade e atualidade são apenas dois modos diferentes da realidade” (LÉVY, 2010, p. 49). Ou seja, no caso da semente, sua árvore virtual é também real, porém não atual, visto que ainda é semente.  Essa ideia de virtualização e atualização, Lévy explica através de outro exemplo:

O vocábulo “árvore” está sempre sendo pronunciado em um local ou outro, em determinado dia numa certa hora. Chamaremos a enunciação deste elemento lexical de “atualização”. Mas a palavra em si, aquela que é pronunciada ou atualizada em certo lugar, não está em lugar nenhum e não se encontra vinculada a nenhum momento em particular. (LÉVY, 2010, p. 50)

Assim, sem vínculo com o espaço e tempo, ou seja, sem estar presente, o virtual ainda se dá como existente.

Enquanto o virtual se apresenta como potencialidade, Lévy (2011, p. 17) define a realização como a “ocorrência de um estado predefinido” e a atualização como a “invenção de uma solução exigida por um complexo problemático”. Num processo de realização, cada atualização do objeto considerado resolve um dilema do que é virtual ao mesmo objeto. No caso da semente, por exemplo, trata-se de seu crescimento até a transformação final em uma árvore. Porém, num processo de virtualização cada atualização muda o conceito do objeto. Ou como diz Lévy, a virtualização é:

Uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do objeto considerado: em vez de se definir principalmente por sua atualidade (uma “solução”), a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num campo problemático. (LÉVY, 2011, p.18)

Então, mais uma vez no caso da semente, podemos afirmar que numa virtualização, cada atualização modificaria o conceito virtual da árvore, alterando sua essência e ao invés do seu crescimento, teríamos potencialmente uma nova ideia de árvore. 

Podemos pensar em dois jovens que se conheceram na internet e virtualizam sua relação numa rede social on-line. Virtualmente eles são um casal, têm potencial para ser um casal. Porém, na virtualização, quando se atualizam eles mudam o conceito do que é ser um casal, definindo-se pela distância física, por exemplo. Enquanto que na realização, uma nova atualização poderia ser um convite para se conhecerem pessoalmente, dando continuidade ao projeto original de ser casal. 

Ainda no contexto das redes sociais on-line, essas atualizações ocorrem nas interações entre atores e na própria manutenção de perfis, ou seja, na construção permanente de identidade. Para Azevedo (2012), a velocidade na comunicação trouxe impactos na estruturação psíquica, gerando novas referências simbólicas sobre família, estado, cultura, religião e outros temas, que passaram, nessa virtualização, a adquirir atemporalidade e desterritorialidade, tornando-se voláteis. Bauman (2001) pensa essa instantaneidade como uma ideia de capacidade infinita, que por sua vez, sugere que não há limites para o que se possa fazer em qualquer momento. “O advento da instantaneidade conduz a cultura e a ética humanas a um território não-mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido”. (BAUMAN, 2001, p.145).

O mundo virtual, das redes sociais on-line, é um mundo que por receber constantes atualizações, está atrelado ao presente dentro de um imediatismo. Mesmo off-line essa instantaneidade, do mundo pós-moderno, impossibilita o sujeito de, conscientemente, edificar um projeto de vida em referenciais e valores mais sólidos. E o existir na virtualidade nega um sentido de continuidade, pois transforma-se em novas possibilidades a cada nova atualização.

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