O SER E O SER VIRTUAL
São duas as categorias principais de existência apontadas por Sartre em sua filosofia e ambas estão relacionadas com a consciência. Reynolds (2013), explica que para Sartre a consciência pode ser pré-reflexiva ou reflexiva, sendo a primeira independente de uma identidade, sem um ego, e a outra, que vincula a experiência com lembranças e assim constrói uma identidade, um eu.
Através dessas formas de consciência que percebemos o mundo em duas categorias de seres: o ser-em-si e o ser-para-si. Por ser entende-se aquilo que é, o algo que existe, que possui identidade fundamentada em si mesmo, enquanto que a consciência precisa ser consciência de algo para existir. Ela só se define pela negação, ou seja, precisa se identificar com algo, mas não é esse algo. Assim a consciência que temos das coisas faz delas seres em-si, enquanto que a consciência que temos de nossa própria consciência faz dela um ser-para-si. Ou como explica Abrão (1999, p. 448):
Existem dois tipos de seres: consciências e objetos de consciências. Estes últimos são em si, isto é, têm existência objetiva, podem ser percebidos. Mas a consciência que percebe, e se percebe, precisamente porque percebe outras coisas, não tem existência em si, mas por si.
O ser-para-si, que é a consciência pura, é o que existe ao se perceber não sendo ser–em-si, é o que nega as coisas que são. A ideia de negação, no pensamento de Sartre, é importante, pois fundamenta seu conceito de liberdade. Para ele, o ser-em-si é “plena positividade e em si mesmo não contém qualquer negação” (SARTRE, 2013, p.46). Bornheim (2005, p. 234), explica que para Sartre, o ser é objeto, enquanto o sujeito é o nada, pois a consciência sem o objeto “não vai além de seu próprio vazio”.
Assim, toda identificação que o sujeito faz de si o coloca como objeto para sua consciência. “O eu, para Sartre, é um objeto transcendente, constituído pelo retorno da consciência sobre si mesma, ou seja, reflexão.” (CABESTAN, 2011, p. 470).
Então, para existir no mundo virtual, um sujeito consciente, precisa primeiramente definir os aspectos deste seu projetar-se, começando pela escolha da ferramenta onde poderá se representar e com isto ser visto e relacionar-se com outros. O indivíduo opta por construir sua imagem numa rede social on-line popular, onde seus amigos já estão virtualmente presentes. O Facebook, segundo o site Olhar Digital (2015), é a maior rede social do mundo, com 1,49 bilhão de usuários. O sistema do site pedirá seus dados pessoais mais básicos como nome e endereço de e-mail. Os dados seguintes são opcionais e o usuário já terá acesso ao sistema, que ao ser utilizado, trará lembretes para se preencher outros dados como localização, grau de instrução, profissão, e será também constantemente convidado a especificar seus gostos culturais, como seus artistas preferidos por exemplo. Essas sugestões são geradas pelo algoritmo do sistema que foi alimentado com os dados dos usuários anteriores, assim o Facebook fornece como sugestão de páginas para serem curtidas as mesmas que já o foram por seus amigos. Bastando um simples clicar de um botão para confirmar aquele elemento da identidade.
O usuário então identifica-se com essas referências fragmentadas, e como diz Azevedo (2013, p. 71), “neste processo de fragmentação de referências, a constituição de identidade do “eu” ou ego fica à mercê do imaginário e das influências do momento.” A escolha de algumas destas características pode se dar por uma questão de status. A profissão, por exemplo, como explica Azevedo (2013) não é apenas uma forma de identificação, mas também um signo de status, que o indivíduo estabelece em busca de aceitação social.
Criar uma representação em um perfil de rede social on-line é um reinventar-se perante o outro. Nesta reformulação pode haver conflitos entre um eu idealizado e um eu real. Azevedo (2013), relata que onde há uma discrepância entre a identidade ideal e a real de um sujeito, há tentativas de fuga desse “self” que pode levar a dependência da internet. Trata-se de um mostrar-se como ser-em-si, buscando fundamentar-se em coisas que lhe são externas, muitas vezes, devido ao imediatismo, sem um autoconhecimento, ou melhor, sem uma reflexão consciente, de um ser-para-si, que na liberdade faz suas escolhas.
