A LIBERDADE E A MÁ-FÉ
A liberdade é o tema central do existencialismo Sartreano. De acordo com Bornheim (2005), trata-se de uma recusa radical a toda e qualquer forma de determinismo. Para Sartre é o nada, um indeterminismo absoluto, que fundamenta a liberdade.
Esse nada é encontrado na reflexão. Na negação do em-si feita pelo para-si, ou seja, na consciência do homem que questiona as coisas do mundo. É como um ser para-si, na reflexão, que o homem coloca interrogações sobre os objetos e fatos do mundo, possibilitando sempre uma resposta negativa. Assim “o homem é o ser pelo qual o nada vem ao mundo” (SARTRE, 2013, p. 67). Essa liberdade, fundamentada na negação, “precede a essência do homem e a torna possível” (SARTRE, 2013, p. 68).
Como exemplo, podemos citar um sujeito que se vê em determinada situação e em sua liberdade, reflete sobre o seu problema. Esse refletir é como um afastar-se da situação, para poder ver a si mesmo de fora, se ver como objeto no mundo, e então poder negar a facticidade, que nada mais é do que a soma de fatos que cai sobre si. Negando-a, o homem pode livremente optar por mudar a situação. Isso é um projetar-se transcendente.
Porém, há no pensamento de Sartre outro conceito, que é a angústia, e é nela “que o homem toma consciência de sua liberdade” (SARTRE, 2013, p. 72). A angústia é uma espécie de medo interno que surge diante das possibilidades apresentadas na liberdade. Porém, difere do conceito de medo. No exemplo de Sartre (2013), diante de um precipício podemos ter medo de cair, medo de algo que está no mundo, que nos é externo, mas podemos também ter angústia de nos jogar no precipício, uma reação que nos é própria, interna.
A má-fé, então, nada mais é do que uma forma de se evitar a angústia. Trata-se de uma fuga da responsabilidade de escolher livremente. Para Bornheim (2005, p. 238), “a falsificação da liberdade, ou a má fé, reside precisamente na invenção dos determinismos de toda espécie que põem no lugar do nada o ser.” Isto é, o homem nega sua liberdade, fundamentando suas escolhas em causas externas, como religião, família, nacionalismo, ideologias políticas etc. Reynolds (2013, p.110) lembra que:
Uma pessoa também está de má-fé se ela se identifica com seus pertences ou qualquer outra parte de sua facticidade. Se dissermos a nós mesmos que somos uma pessoa melhor do que outra meramente porque vestimos a roupa certa, ouvimos certos CDs, temos uma posição poderosa na sociedade ou temos muito dinheiro, estamos nos identificando com nossas posses e nossa facticidade.
O consumismo, a compra por impulso, é então também uma forma de má-fé, pois o sujeito passa a se definir pelo o que lhe é externo. Aranha e Martins (2003, p. 359), explicam que ao recusar a liberdade, o sujeito “despreza a dimensão do ‘para-si’ e torna-se ‘em-si’, semelhante às coisas. Perde a transcendência e reduz-se à facticidade.”
Essa identificação com a facticidade pode ser facilmente encontrada nas redes sociais on-line. A virtualização parece potencializá-las. Para Azevedo et al. (2012), a necessidade do indivíduo de criar um sentimento de pertença nas redes sociais, o faz demonstrar uma identidade diferente da que se apresenta no mundo off-line, trocando a verdadeira por um “falso Self”, que é uma identidade aceita pelo próprio sujeito e pelos outros pertencentes a mesma cultura. “Essa falsa identidade ou personalidade encobre a verdadeira, permeando, assim, uma conduta baseada apenas na aparência dos fatos.” Os autores também explicam que segundo teoria de Persona, de Carl Jung, criamos vários papéis para agirmos conforme as situações que vivenciamos.
Porém, com a flexibilidade e o dinamismo presentes nas Redes Sociais, mediados pela tecnologia, permite-se que estes papéis, ou seja, a Persona, ganhem vida nesse “não-lugar”, possibilitando que o sujeito seja qualquer coisa, menos ele mesmo. Essa coisificação do “EU” e a personificação da “COISA”, forçadas pela manutenção das Personas nas Redes produz uma imensa gratificação emocional, e, ao mesmo tempo, um enorme sentimento de insegurança, além de um gigantesco gasto de energia psíquica para manter as aparências desses papéis. (AZEVEDO et. al., 2012, p. 72)
Trata-se de máscaras que usamos para nos apresentar ao mundo, que podem ser usadas para impedir que um “eu” verdadeiro transpareça. Podendo também, nas redes sociais, ocorrer de forma contrária, onde o sujeito revela-se sem máscara, mesmo que escondido no anonimato, para praticar atos em que ele se vê, na virtualidade, sem uma censura, sem o olhar do outro.
A busca pela visibilidade dentro das redes pode trazer consigo comportamentos que não são admitidos no mundo “Real”, onde as relações são marcadas por normas e regras. Tais normas e regras não são estabelecidas nas redes e são, assim, subjetivas, apresentando pouca capacidade ou força de gerar senso crítico. Nesse âmbito, podemos presenciar a utilização de artifícios para conseguir a visibilidade passando por cima da Ética e da Moralidade. (AZEVEDO et al., 2012, p. 73)
Assim, essa busca por visibilidade, que é uma marca da existência virtual, e também por aceitação em círculos sociais on-line, onde o indivíduo cria um projeto de si, fundamentado pelo meio no qual se insere, também podemos chamar de má-fé. Encontramos ali a negação da liberdade sartreana e uma falta de transcendência num existir mais autêntico.
A vida sem autenticidade, no sentido de fundamentá-la no padrão de vida alheio, pode ser causa de infelicidades, como relata Idoeta (2015), onde pesquisas apontam o uso passivo do Facebook como causa de inveja e tristeza por parte de pessoas que apenas observavam as postagens de amigos e celebridades, ignorando o fato que “as redes sociais mostram uma versão ‘editada’ de nossas vidas.” Expomos geralmente o que vivenciamos de melhor e ocultamos os fatos triviais.
Outra forma de negar a liberdade nas redes sociais on-line é se deixar levar pela quantidade de likes. Aguiar (2015) escreve que, segundo um estudo realizado nos Estados Unidos, homens com obsessão por selfies, fotografias tiradas por si próprio, tendem a ter maior índice de psicopatia, narcisismo e auto-objetificação. Segundo o autor “pessoas mais narcisistas postam mais selfies. ‘Likes’ e comentários incentivam o narcisismo. Por sua vez, o narcisismo incentiva mais selfies, e por aí vai.”
E segundo Senra (2015), Pamela Rutledge, psicóloga americana, em entrevista para a BCC Brasil, avaliando o grau de agressividade de comentaristas na internet, afirma que “já estamos acostumados com a ideia de que nosso comportamento obedece a regras sociais, mas ainda não percebemos que o mesmo vale na internet”. A psicóloga afirma ainda que as pessoas se sentem mais poderosas quando diminuem ou ofendem alguém.
Assim a má-fé está diretamente relacionada com a percepção que queremos que o outro tenha de nós. É um mentir para si mesmo, esperando que o outro também acredite. É negar a liberdade do para-si, e se objetificar em um em-si para o outro.
