O OUTRO
Para pensarmos a relação de um sujeito com seus semelhantes, seja no mundo off-line ou on-line, devemos entender a questão do Outro. Segundo Reynolds (2013), o outro é todo aquele que se apresenta à nossa consciência como objeto, e do qual fazemos um uso instrumental. Como por exemplo, um atendente de loja do qual esperamos apenas que nos preste o serviço específico. Mas essa concepção do outro gera o solipsismo, que é a crença de existir apenas um único ser consciente, o Eu. Essa ideia parte do princípio de que nos é impossível ter certeza absoluta que as demais pessoas, que nos aparecem, também possuem uma consciência. Trata-se de uma perspectiva idealista, que coloca toda relação que se dá no mundo como sendo de sujeito para objeto. De para-si para em-si
Sartre (2013, p. 298), diz que o Outro:
na perspectiva idealista, não pode ser considerado como conceito constitutivo nem como conceito regulador de meu conhecimento. É concebido como real e, contudo, não posso conceber sua relação real comigo; eu o construo como objeto e, contudo, ele não me é dado pela intuição; posiciono-o como sujeito e, contudo, é a título de objeto de meus pensamentos que o considero.
Porém Sartre quebra essa crença, mostrando que o Outro também é um ser consciente, também pode ser sujeito. A consciência do outro, que se percebe como sujeito, nos aparece no momento em que nos percebemos como objeto ao seu olhar. Assim Sartre define a vergonha, como uma objetificação do “eu” perante o olhar, o juízo consciente do Outro. As relações se dão numa constante luta entre consciência e objetos, onde cada uma tenta sobrepor a outra.
Enquanto a consciência está apenas em relação com objetos, ela está diante do amorfo, daquilo que não lhe devolve o olhar. Mas quando duas consciência estão frente a frente, cada uma tenta não só atrair os objetos para o seu mundo perceptivo como também procura incorporar a outra consciência. Cada consciência tenta ‘objetivar’ a outra. (ABRÃO, 1999, p. 449)
Reynolds (2013), explica que através do olhar do outro nós perdemos nossa subjetividade e nos tornamos objeto para o seu julgamento. Esse é nosso ser-para-o-outro. É no ser-para-si do outro que reconheço meu ser-em-si. Trata-se de uma experiência alienante, que deve ser evitada. E para Bornheim (2005, p. 236) “disso deriva o sentimento originário da minha relação com o outro, que é a vergonha.” Ou nas palavras de Sartre, sobre o reconhecimento do ser-em-si:
Eu sou este ser. Nem por um instante penso em negá-lo; minha vergonha é a confissão disso. Mais tarde, poderei usar da má-fé a fim de disfarçá-lo de mim, mas a má-fé também é uma confissão, pois se trata de um esforço para recusar o ser que sou. (SARTRE, 2013, p. 337)
Evitamos constantemente esse olhar do outro que limita nossa liberdade e solidifica nossas possibilidades de ser no mundo, para isso tentamos controlar nosso ser-para-o-outro, fazendo com que sejamos vistos como desejamos ser.
O outro não precisa necessariamente estar presente para sentirmos o seu olhar. Sartre (2013) diz que “estar ausente é estar-em-outro-lugar-em-meu-mundo; é ser já dado para mim.”. E como exemplo o pensador francês cita uma carta de uma mulher ao seu amante, que o comove sensualmente. E a sala de uma casa onde espera-se pelo o proprietário, afirmando que mesmo em sua ausência, a sala possui um “esboço” de seu dono, que pode vir a preenchê-lo a qualquer hora, com sua matéria. O corpo do outro se faz presente de forma lateral através das “coisas-utensílios” de nosso mundo.
Assim a presença do outro se expande pela rede, em suas atualizações, suas postagens. O olhar, no virtual, se dá mais facilmente na interação, na resposta. Um like ou um comentário em alguma de nossas postagens, pode nos revelar o outro como sujeito. Porém, a busca pela visibilidade, como afirma Azevedo (2013, p. 97), pode apresentar comportamentos que não são admitidos no mundo off-line e as regras nos mundo virtual são subjetivas “apresentando pouca capacidade ou força de gerar senso crítico”. Isso pode impactar no sentimento de vergonha, tornando-o efêmero e diminuindo o reconhecimento do outro como sujeito, ou aceitando a própria condição de objeto, numa relação que Sartre chamaria de amor ou masoquismo.
A comunicação mediada pela máquina parece então fortalecer a crença no solipsismo, uma relação de sujeito para objeto, porém, se a identidade de um sujeito no virtual já se trata de uma objetificação, um papel desempenhado, um ser-em-si em busca de aprovação e visibilidade, buscamos o sujeito no outro enquanto nos coisificamos.
